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Líderes sendo rudes uns com os outros publicamente nas redes sociais, vários criticando o processo de reestruturação aprovado democraticamente no ano passado, ao mesmo tempo em que muitxs joomleirxs das comunidades locais desacreditam a liderança internacional. O que está acontecendo, afinal?

 

Antes de mais nada, vamos esclarecer duas coisas:

1) Eu sou completamente apaixonada pelo Joomla! e sua comunidade, como vocês podem ler no artigo Por que eu escolhi o Joomla?

2) Sou apenas uma voluntária do projeto e não sou a dona da verdade. O que quero compartilhar com vocês é a MINHA visão sobre qual é o nosso problema atual e, ao mesmo tempo, propor um plano para avançarmos do patamar atual. É uma opinião pessoal e deve ser encarada como tal.

 

O problema do Joomla! hoje chama-se SISTEMA.


O Sistema

Para explicar, deixem-me falar um pouco sobre História.

Na década de 60, os jovens queriam mudar o sistema. 1968 foi um ano marcante e efervescente em vários lugares do mundo, quando jovens arriscavam suas vidas contra governos ditatoriais, buscando um mundo melhor, com liberdade de expressão. Hoje, muitos líderes populares daquela época são políticos que representam o povo. Por que, então, eles não conseguem colocar em prática os ideais que tanto acreditam e pelos quais colocaram sua integridade física em risco?

A resposta é simples: quando você entra no sistema, percebe que é praticamente impossível mudá-lo. Isso porque o sistema visa permanência, visa a manutenção do status quo. Você apenas conseguirá entrar no sistema se estiver alinhado com o sistema, senão você não será aceito. E também precisa aliar-se a pessoas que já estão inseridas no sistema - e, portanto, possivelmente já estão viciadas: elas querem manter o sistema, querem manter a fonte de status, poder e dinheiro. Se você não faz alianças, não entra. Ao entrar, você está comprometido com essas alianças. Por mais que você tenha uma ideia que pode acabar com a fome no País, se esse não for o objetivo das pessoas que já estavam no sistema, você não conseguirá mudar nada, pois precisa da aprovação dos demais.

Além disso, o sistema político é completamente ligado ao sistema econômico. Poder econômico = poder político. E, como se sabe, os interesses econômicos do Capitalismo geralmente não estão alinhados ao bem-estar do povo. A mais-valia está justamente em poucos explorarem o trabalho de muitos. É assim que se enriquece. E eles querem enriquecer, não dividir riqueza. 

Portanto, o problema não são as pessoas em si, mas sim um sistema que obriga as pessoas a se corromperem e abandonarem alguns ideais para poderem ter apoio para realizar outros. É assim, por exemplo, que hoje temos no Governo Brasileiro um partido de esquerda, submetido a ideias neoliberais de direita.

E o que isso tem a ver com o Joomla!?

Tudo! Hoje temos um sistema de liderança de certo modo desconectado da comunidade global. Estamos passando por um processo de reestruturação que, ao meu ver, pode sim aprimorar o modelo de Governança, mas se não houver uma mudança estrutural no sistema, vamos trocar seis por meia dúzia e nossos problemas não serão resolvidos.

Eu gosto da proposta de nova estrutura do Joomla! aprovada, porque vejo nela uma brecha de possibilidade de mudar o sistema.

Se eu acredito que vai mudar? Não. Simplesmente porque as pessoas que estão conduzindo esse processo e as pessoas que serão as responsáveis por fazer o novo modelo funcionar (a liderança de modo geral) talvez não estejam comprometidas com a mudança do sistema em si, mas apenas com uma reorganização dele. Aliás, é provável que elas não queiram mudar, porque elas dependem do sistema. No fundo, as mudanças poderão ser na hierarquia, na organização, desde que não modifiquem o status quo.

Você está dizendo então que nossos líderes são egoístas e não são comprometidos? NÃO foi isso que eu disse. Conheço várias pessoas fantásticas na liderança e a maior parte deles comprometidos com o Projeto Joomla!, a quem tenho muito respeito. O que eu estou dizendo é que muitos não estão comprometidos com as mudanças estruturais necessárias para que o Projeto Joomla! torne-se sustentável e viável nos próximos 10 anos (na minha opinião, lógico). 

   

E por que isso acontece?

1. Porque quando se está dentro de um sistema, não se quer que ele realmente mude.

2. Porque mesmo que a gente esteja dentro do sistema e queiramos que ele mude, não conseguimos pensar fora da caixa e vislumbrar como poderíamos fazer isso.

3. Mesmo que você esteja no sistema, queira mudar e consiga ter uma ideia realmente boa para fazer isso, o sistema simplesmente sufocará você, buscará tirar sua capacidade de agir, porque a maior parte das pessoas no sistema não consegue alcançar o estágio em que você está. E a maior parte delas quer manter o status quo, o que é natural do ser humano.   

 

Aliado a isso, está o fato de que bons programadores podem ser excelentes técnicos e, geralmente, até bons gerentes de projetos. Bons programadores não são necessariamente líderes. Eu, particularmente, enxergo na liderança do Joomla vários líderes e, ao mesmo tempo, outras pessoas que não têm qualquer habilidade de liderança. Esses últimos, são pessoas que entendem de gestão de projetos mas não de gestão de pessoas. Pessoas que tem um modelo mental fordista, totalmente ultrapassado em termos da gestão atual. Então elas são ruins? Não, são ótimas! Só estão no lugar errado.

Hoje na gestão do Joomla!, não me parece haver clareza entre as dimensões estratégicas, táticas e operacionais. Todos acabam fazendo tudo. O que, obviamente, só pode ter um resultado: um modelo de gestão falido. Se há essa clareza, pelo menos para nós que estamos de fora, não é perceptível.

Uma das coisas que eu gosto na nova estrutura é justamente a oportunidade de uma maior separação de papeis entre essas três dimensões. Liberar as pessoas da área tática do trabalho operacional para que elas possam investir realmente no que deveriam fazer. E liberar as pessoas da área estratégica do tático e operacional para que elas possam justamente trabalhar com estratégia - e não tudo misturado como estamos hoje.

No entanto, mais uma vez eu digo: a possibilidade de isso funcionar é muito pequena. Simplesmente, porque as pessoas não parecem estar colaborando. Esse era o momento de uma força tarefa, de todos os grupos estarem trabalhando juntos na redefinição da estratégia institucional, com afinco, ouvindo as bases, os clientes. Eu pergunto a vocês: em que momento os nossos clientes entraram na definição da nova estrutura? Resposta: nenhum. Em que momento colocamos o nosso exército - as comunidades locais - para repensar a nossa estrutura? Pessoal, abrir uma proposta para as pessoas darem opiniões NÃO é trabalhar em colaboração. Trabalhar em colaboração é criar mecanismos para que as pessoas participem da construção e se sintam parte disso. O número de líderes que votou -1 para a proposta me mostra que eles realmente não participaram ativamente de sua construção. Se tivessem participado, seria uma proposta aprovada por unanimidade.

"Mas é impossível ouvir todo mundo, isso seria um caos, uma anarquia. Alguém precisa centralizar." Concordo, em partes. É sim impossível fazer isso no modelo mental que temos hoje. É impossível mudar o sistema de dentro para fora. O sistema só muda de fora para dentro. E agora, finalmente, começo onde quero chegar.

 
O Joomla! tem hoje três perfis distintos de clientes:

- Usuários/usuárias das soluções desenvolvidas em Joomla!

- Desenvolvedores/desenvolvedoras de soluções em Joomla! (pessoas ou empresas)

- Joomlers - Joomleiros e Joomleiras, que são pessoas ativas na comunidade, trabalham voluntariamente pelo Projeto e pela comunidade. 

 

Pergunta: Como temos inserido os nossos clientes, que são o objetivo final de tudo o que fazemos, em nossa gestão do Projeto Joomla!?

Resposta: na minha opinião, não temos. 

 

Lembrando que apenas OUVIR as pessoas não significa propiciar que elas participem da CONSTRUÇÃO COLETIVA e da GESTÃO. Uma coisa é bem diferente da outra. 

Existe hoje um abismo entre a liderança e as comunidades locais. O espaço entre elas é tão grande, que eu asseguro a vocês que 99% das pessoas da comunidade com quem converso não têm a menor noção do que é a liderança do Joomla!, de tudo o que é feito e do potencial do projeto. E é por isso que surge o descontentamento: na percepção superficial deles, tem pessoas demais fazendo coisas inúteis e viajando pelo mundo sem dar resultados concretos de melhoria para a comunidade.

E querem saber a minha opinião? Eles não estão totalmente errados.

Porque, de fato, o Projeto Joomla! tem (ou deveria ter) três focos com IGUAL importância: código, gestão e comunidade (não confunda FOCO, com estrutura - não estou falando de CLT, PLT e OSM). Eu sei que no Joomla! se tem conhecimento da importância da comunidade e que o Joomla! ter dado certo e estar aqui por 10 anos deve-se à comunidade. Poderia ser o melhor CMS da galáxia. Sem a comunidade, a única chance de ele ter dado certo seria a comercialização - e possivelmente estaria bem aquém tecnicamente do que é hoje.

Mas por outro lado, a comunidade está de certa forma fora da construção do software e do Projeto. Sim, eu sei que muitos membros da comunidade ajudam nisso. Mas convenhamos que essas pessoas ajudam porque elas foram atrás, elas descobriram o que podiam fazer, elas criaram as oportunidades. As oportunidades de colaborar não estão claras para a maior parte das pessoas.

Mas nós temos um milhão de relatórios, um milhão de informações, está tudo lá para quem quiser ver.
Para quem tiver tempo e paciência de ler um milhão de coisas e tiver a capacidade de entender a conexão entre elas, você quer dizer? É assim que se relaciona com o cliente?

Como fizemos o nosso lançamento de versão mais recente, Joomla! 3.4? Nós fizemos inúmeros relatórios? Nós falamos sobre tudo o que mudamos na nossa versão? Não, nós selecionamos os pontos principais e os vendemos, de forma objetiva e atraente. Atingimos assim o nosso perfil de cliente número dois: os desenvolvedores.

De novo pergunto: e como estamos atingindo o nosso cliente de nível 3? Aquele que está mais próximo a nós? A comunidade global?
Não estamos. E, como uma pessoa MUITO atuante na comunidade brasileira, nem Deus me convenceria que eu estou errada.

O JUG Team deveria ser muito maior, com membros divididos entre as áreas estratégica, tática e operacional. Com profissionais com diversos perfis, como especialistas em marketing de relacionamento, gestão de pessoas e de projetos. Precisávamos de líderes para esse time com visão sistêmica e estratégica. E membros advindos de todas as partes do mundo ajudando com o tático e operacional, de modo a criarmos uma estratégia para diferentes culturas (o que é diferente de multilinguagem). Mecanismos de acompanhamento eficazes e de suporte para o desenvolvimento do trabalho (e não apenas: aí, parabéns, agora você é uma JUG, se vira). A comunidade deveria ser aproveitada com o grande potencial de Exército que ela tem. É ela que deveria fazer o trabalho operacional. É ela que deveria subsidiar informações para as mudanças.

Quando falo isso, não quero dizer que as pessoas que estão no JUG Team hoje são incompetentes. Estou dizendo que, por mais bem intencionadas que todas elas sejam, dentro desse sistema elas não conseguem fazer qualquer mudança. Porque não vejo muita abertura para mudança.

Imagina o que seria a documentação do Joomla!, por exemplo, se tivéssemos um plano concreto de fazer o nosso exército comunitário fazer isso por nós. Para isso, não basta dizer: olha aí, gente, esse é o Joomla Docs e vocês podem editar quando quiserem. As pessoas não vão fazer se você não disser o que exatamente eles precisam fazer, quando e como. Aliás, não vão saber nem como começar. As pessoas que fazem isso são exceções, pessoas que tem uma habilidade de liderança e desenvoltura diferentes.

E não seria na comunidade que deveríamos formar nossas novas lideranças? Sinceramente, a gente tem algum plano de identificação e capacitação de novas lideranças ou ficamos simplesmente que alguém se destaque e se ofereça para trabalhar?

 

Ok, tudo muito bonito na teoria. Mas como se faz isso na prática?

O que mais me angustia é que isso não é complexo de se fazer. Me angustia que estejamos com a faca e o queijo na mão, só esperando cortar. Me angustia que as pessoas com quem converso na maior parte das vezes não consegue expandir o olhar além do que já temos hoje. Me angustia receber como resposta "boa ideia, vou levar isso para a reunião do time tal" e você saber que nunca receberá qualquer resposta. Me angustia a falta de transparência (para a comunidade) de como os assuntos são tratados. Me angustia como o processo de implantação da nova estrutura está acontecendo, também alheio a nós da base. 

Me incomoda demais ver membros da liderança brigando publicamente nas redes sociais por coisas que, na minha opinião, não mudam nada pra gente: nós, os clientes!! É pra gente que eles estão lá, não é mesmo?

E aí vocês podem me perguntar: "mas por que você não se dispõe a trabalhar para mudar isso?" Eu tenho tentado isso em nível local há quase dois anos. E desisti. Pois nada vai funcionar se não houver vontade política e um time de pessoas que realmente queiram e acreditem na transformação. Temos na comunidade brasileira um grupo de 4 pessoas que eu identifico com esse perfil. Mas sem apoio, essas pessoas são massacradas por aqueles que não entendem nada sobre construção coletiva e colaboração e que querem apenas manter o status quo.

Eu cansei de ser massacrada, cansei de sofrer assédio moral, violência psicológica, boicote. Avançamos muito no ano passado em termos de organização da comunidade brasileira? Sem dúvida. Mas não avançaremos mais do que isso se o sistema, como um todo, não mudar.

Sim, eu tenho um sonho. Mas nesse momento a minha saúde e a minha paz de espírito estão sendo, racionalmente, colocadas em primeiro lugar.

No próximo post, compartilharei com vocês um plano de ação - na verdade, um esboço de uma ideia que precisa ser aprimorada pela comunidade - de implantação em curto prazo e previsão de consolidação em um ano. Ele foi elaborado com base na minha experiência como analista da Diretoria de Gestão de Pessoas de uma grande empresa, na minha experiência com desenvolvimento de ferramentas colaborativas e também do aprendizado que tive como gerente de equipe e de projetos. Como eu disse, nada de implementação complexa ou alto custo. Mas só viável em organizações abertas ao empoderamento do cliente e à mudança.

Será que nós somos?

Será que estamos abertos a fazer do Joomla! o que essa palavra significa? Todos Juntos?

 

 

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